estava lá diante daquele riacho, hoje menos mágico, sem os bichos mitologicos, ou ainda oa fantasmas que a seguiam na sua cabeça de menina boba. Até o corpo perecera, sem encanto ou cor, branca pálida, onde o único realce de sua pele eram os olhos e o nariz avermelhados, culpa da eterna coriza. Já havia tempo, maninha estava ciente disso, todavia, não podia deixar de recordar, cruzou o riacho e adentrou mais uma vez na mata varzeana, ainda largada. Trazia sob o braço magrelo e tímido umas flores meio que vivas, ainda. A manha já se tornava numa tarde triste, que chorava garoa pelos ombros salientes de maninha. Maninha era como a flor. Só desvariados dessa vida a tragavam, comiam, apreciavam. Era só ela, perdida naquele mundo, em que sobra homens de corações vazios, bem-sucessidos, que chegavam em casa, sorriam, e se acomodavam a observar a vida que imita a arte. Ou será o inverso, ou ainda ambos?
Só sabia que estava só, naquele mundilhão que a cercava e engolfava tudo ao seu redor, "cidade dos infernos" - murmurava - "que a terra a engula e quem nem a memória fique". Maninha não pode e não consegue nada. Só o resmungo carrancudo a alivia.
Ainda sim, sobrou algo daquela doce menina que espreguiçava, ao primeiro sinal de sol. Um inocente sorriso se abria, seguido de uma triste lágrima, diluida na garoa que seguia monótona. Mais adiante estava outro riacho. Ainda puro, ainda limpo, intocado. Cercado pela insistente neblina que acompanhava os passos de maninha. Ela era um mistério, seu vulto se ocultava a cada passo que seguia sua peregrinação. Ao final havia chegado, sem marco, sinal, placa, nada. Não precisava. Parou súbita por um instante, deixou a chuva correr mais alguns segundos, não havia pressa, seus olhos vermelhos escorriam, eram levados pela chuva, que com cuidado os depositavam, saudosos, felizes ao rever aquele chão, que há muitos anos não se via.
Maninha permaneceu imóvel, sorriu, suspirou algo imcompreensivel para nós, mas bem claro na lingua dos anjos, que a acompanhavam, eles tambem choravam, criando a garoa, ao se recordarem.
Por fim, Maninha se deu por si, ensopada, deixou as flores agonizantes naquele quase lamaçal, engoliu seco, e foi-se, dissipando quase que imediatamente a névoa, clareando o que sobrara do dia.
domingo, 16 de agosto de 2009
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Poético. Muito bom mesmo, parabéns.
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