quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Desculpa Literária

Acho que deixei vocês, caros leitores, ligeiramente confusos com essa enxurrada de coisas. Se esse for o caso, me desculpe. Caso não saiba, ainda sou um amador, suscetível a intempéries de pensamentos, uma corrente não contínua de idéias e lugares e coisas, que juntas, dizem em coletivo o que vieram a dizer, compondo a doce, e aguda melodia urbana. Todavia, deveria ser meu papel, como jovem observador, de ordenar tal bagunça, tornando-a compreensível aos seus olhos. Por isso, mais uma vez, me desculpo, e deixo a promessa de me linearizar, é preciso focar no essencial.

Pois bem, vamos logo retomar com João. Tínhamos o deixado ali, moribundo e dolorido, após a briga enciumada com seu melhor amigo, Fernando, que no fundo não tinha culpa alguma, quem sente amor, sente dor, é assim que as coisas funcionam afinal de contas. Quem ama não se culpa, apenas é culpado por sonhar. Depois daquilo seria necessário algum tempo para que o contato entre ambos voltasse a ser como antes.

Depois da saída, Rachel até que pensou em falar com João, falar ou tentar ficar perto dele, mas preferiu que não. Melhor assim. Nos deixa rapidamente retomar as coisas. Bem, o que falta? Ah, sim. João tem uma irmã, caso não lembre, maninha Lúcia, maninha, era uma pétala frágil, branca e delicada, que trazia alegria ao apartamento em que João morava. Bem, além de maninha, o pai. Ausente, um rosto nas poucas fotos em que tiravam juntos, ora em eventos da empresa, ou ainda em festividades com os poucos parentes que podiam visitar á aquela pequena família de rostos e sorrisos em pequenas janelas empoeiradas.

João está só. Apesar de ser o menino mais popular da escola, aquele que já saiu e beijou quase todas as meninas da escola, estudando pouco mais de dois anos e meio ali. Maninha era seu consolo, lógico, aquela criatura delicada e sem gosto. Menina de nove anos em seu esplendor de inocência. Puxava insistentemente o braço de João, que se distraia, depois da aula, admirando a fúria com que cruzavam os carros, na rua que dava em frente à escola. João tinha a cara ainda marcada. E, além disso, seu pai lhe dissera que poderia demorar, deixando João ali, com maninha, que ainda puxava o braço até o ponto de tirar-lhe um irritado “O que foi maninha?”:

- João, que aconteceu na sua cara?

- Ah, sei lá – cutucava a casquinha em seu antebraço.

- Fala pra mim, João, faz desde quando a gente saiu da escola que você não fala nada pra mim

- Tudo bem, eu briguei com o Nando – saiu como um desabafo

- Por que?

- Não sei, ele veio do nada, me bateu, e eu bati de volta.

- Mas por que?

- Não sei maninha, por que tanta pergunta?

- Ah João, porque me importo com meu irmão né?

Aquilo bateu no peito de João, por um instante ouve um embaraçador silêncio cobriu a conversa entre os dois. Os carros ainda cortavam o asfalto, acima do limite estabelecido. Vai e passa e passa e passa mais outro. João olhava e esperava que o próximo fosse o de seu pai. E os dois ficaram de pé por algum tempo, até decidirem sentar na calçada. Maninha queria entrar para continuar brincando com os poucos colegas que ainda esperavam por seus pais. Pedia para João, que repelia, dizendo que ele poderia vir a qualquer hora.

Passou-se assim quase uma hora, e sem sinal daquele que seria o carro que os levaria para casa, apenas similares, que aumentavam as esperanças de ambos, que chegavam a acenar, mas ao perceberem que se tratava de um carro igual, não o próprio, recolhiam tímidos os braços e soltavam algumas risadas para passar o tempo. Mais meia hora e nada. Finalmente o pai liga para João. Num tom de voz agitado, quase que mecânico, ele pede que os dois tomem o metrô e o encontrassem na saída do terminal mais próximo do escritório.

Quase cinco da tarde e lá estão. Dois pequenos, na cidade dos gigantes, estão ali, rumo à estação, o céu entristecia a tarde, seca e alaranjada. Sempre presa ao anel protetor que formava a mão de João Pedro, maninha, com sua mochila rosa nas costas seguiu até o guichê da compra, ouviu João pedir as passagens, se espremeu pela catraca e pela gente que entrava no trem. Já no vagão, com sorte, os dois encontraram um banco vazio. João ficou pela janela, olhando as pessoas paradas se moverem bem depressa, e em seguida o muro. Estava com os olhos vazios, admirando a velocidade com que já estava habituado. Dalí a três estações faria o baldeamento, rumo a Av. Paulista. Aproveitava as vezes que pegava o metro admirando aquele túnel que seguia e seguia, e ali vem a estação. Mais gente, menos ar.

Aqui preciso parar um minuto. Sei que prometi que não o faria, mas o ímpeto, esse o verdadeiro culpado me impede. Precisamos regressar outra vez, todavia agora, um pouco mais. É preciso regressar para quando tudo era nada, e que João era outro. Sim, exatamente. O Reveillon de 1995.

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