"One more time... One more time... One more time, we gonna celebrate, oh yeah, oh right don't stop dancing... " Daft Punk brotava das caixas de som do clube, ao seu volume máximo, luzes caleidoscópicas desorientavam quem alí se encontrava. Jovens as centanas bebendo o que podiam e não podiam, o mundo não tem amanhã, pelo menos hoje. Estamos em 31 de Dezembro de 1995, rave do ano novo, havia muito o que se celebrar. Havia muito para se experimentar e sentir, afinal aquele ano fora muito produtivo, pelo menos para duas almas jogadas nesse mar de neon.Rafael (19 anos) estava eufórico, era a primeira vez que ia na balada este ano, não que ele não gostasse, ou que faltassem baladas nessa época. Rafael era um vestibulando, pretendia medicina e havia feito vestibualres de todos os tipos e formatos possiveis. Arrombara sua mente de logaritmos, prosopopéias, estequiometrias, datas e locais . Tivera incontáveis noites mal dormidas, além da própria exclusão social que se submetera. Mas afinal o cursinho o recompensara, havia sido aprovado para a segunda fase de várias faculdades. Mas isso hoje não importa. Era um bicho, havia sobrevivido e estava alí, pele branquela que mal conhecera o sol aquele ano. Era um zumbi vencido pelas infinitas apostilas e fórmulas e precisava lavar sua cabeça. Sentia o gosto de alcool, numa suave mistura com boca, música e outra boca e mais uma. Não há segunda fase, ele passou, podia acabar-se o mundo amanhã, mas não hoje, hoje "we gonna celebrate... celebrate and dance so free".
A alguns metros de distância, Aline (25 anos) também tinha o que comemorar. Terminara a defesa de tese a uma semana e recebera a uns 2 dias atrás a notícia que havia sido aprovada pela mesa da faculdade de direito, podendo enfim se chamar de advogada. Estava com algumas amigas que se espalharam por aquele imenso salão. Seus pés se moviam freneticamente, ao ritmo da batida e do refrão que se repetia várias e várias vezes, dando a impressão que ela estava presa no tempo, para sempre naquele lugar, naquela euforia bêbada, naquele paraiso de luzes dancantes.
Rafael, pelo impeto, balançava de um canto a outro, em busca de mais euforia. Percebeu Aline, que agora havia sentado numa das várias cadeiras, com uma mão uma lata de cerveja. Sentiu no alccol, e foi aos vagarosos passos em sua direção. O salão camufalava as cadeiras, que uma a uma, Rafael encontrava de frente. Aline tentou ao máximo esconder o sorriso entre seus lábios. A lua brilhava de forma espetacular, a expectativa era alta. Adeus ano velho, se poderia ouvir de longe, soprado pelas rodas familiares e ou amigos. Mas estamos na terra da musica descompassada, mecânica e repetitiva ("... one more time, one more time ..."), e que se repetia, em que mal se via o chão, em que sua mente não lhe pertencia, e sim ao inaudivél e contagiante aroma das pílulas, anfetaminas, e outras, eternas companheiras das noites de luzes caleidoscópicas.
Cambaleando, chegou enfim, preferiu não sentar, para não ter que ficar alí. Estava diante, face a face, pensou o mais rápido que pode, antes que o silêncio o constrangesse:
- Você é bonita...
- E você um moleque - respondeu entre leves risadas, em seguida tomando um gole do copo.
- Só pareço.
- Tem quantos anos moleque?
- 21- tentou mentir.
- Se tiver 19 é muito.
- E se eu tivesse isso, você ainda me beijaria?
- Ahh - abriu o sorriso encabulada, caso estivesse com suas amigas, ja o teria feito, todavia - só beijo homens, não meninos
- Por que não experimenta?
Ele emudecera, estava pensando na resposta, mas viu nos olhos daquele moleque bêbado e atrevido o mesmo que Rachel viu em João, o sorriso que Rafael no rosto dele desencadeou o ato. E ficaram ali, trocando beijos e carícias por um tempo, depois passaram a conversar mais seriamente, a medida que a noite permitia. Decobriram tanto em comum, que cada vez que um achava por encerrada a conversa, o outro a emendava, de forma tão despretenciosa, tão unica, que os fez as horas irem em montes e ainda mal tinham começado. As amigas, ao verem ela não mais sozinha, fizeram um sinal, avisando que iriam embora. Ela consentiu. E logo vieram as carícias. Passado uma hora. Ele parou, olhou ao relógio. Uma e meia. Olhou de volta para Aline, tentando fixar seu rosto, para que não fosse levado embora, junto com a embriaguez. Ia levantando, quando ela o tomou pelo braço ("...celebrate and dance so free..."). Ambos sentiram a música mais forte, apesar de já ter parado de ser tocada há muito tempo. Perguntou se queria ir para casa. Rafael exitou, tinha medo de ser repreendido caso sumisse. Ela morava perto disse, poderia voltar e chegar um pouco mais tarde.
Carro, portão, sala, quarto, silêncio. A madrugada foi calma. Quando Rafael acordou, de depararou nú, enroldado na pele macia de Aline. Levantou, se vestiu rapidamente, exitou por um segundo. Viu o corpo dela, contorcendo-se delicadamente no colchão, dormida, sorrindo maliciosamente, com os raios de penumbra invadindo aquele pedaço de escuro, e banhando o dourado de sua pele nua e dura. Fora a primeira vez que Rafael tivera sexo, e por isso, achou melhor rascunhar o numero de casa para que ela pudesse ligar. Saiu, como entrou, despercebido.
Horas depois, Aline acorda sozinha na cama, zonza da noite passada, aquele moleque sabe como dar conta do recado, pensou. Viu o bilhete, com o nome ("Qual era o nome, ahh sim, Rafael") com o numero. Ligou o radio e foi ao banheiro. 1º de Janeiro, começava a manhã de 1996 ao som do sucesso de Daft Punk...
"One more time, one more time ..."
