sábado, 6 de junho de 2009

A Descoberta do Mundo

O nome era Felipe, tinha 12 anos, estudava numa boa escola qualquer da cidade. Tímido, fechado, de corpo pequeno, olhos gigantes e coração inexplorado e virgem. Classe média vai ao shopping, perder seu BV.
O nome dela não se sabe, nem importa se mistura ao ambiente como um camaleão. Ao lado de Felipe, o amigo incentiva conversa, dá boas dicas de como fazer.
A hora estava marcada, ali estava Felipe, o amigo, a menina falta. 19 horas na frente, era o combinado no MSN. De calça jeans grossa, em pleno Janeiro, Felipe suava, ficava vermelho, mas não pelo jeans, senão pelo iminente furo, já era 7 e 10, e o nervosismo aumenta, rosto cor de sangue. Os grandes olhos inquietos, ela se mistura bem...
7 e meia, acabou-se, só faltava essa. Felipe agitava a angustia, inconformado, o amigo consolava. Shopping no sábado a noite. Felipe não estava bem, queria ir, já dava o fora como dado, não era o primeiro, mal sabe que não será o último.
Mas finalmente lá estava ela. Estava melhor a foto do Orkut. Olhos menores, mas ainda enormes, cabelo moreno enloirado, batom e gloss em excesso, corpo de menina de 14 anos, uma perfeita devoradora de BVs.
Felipe continuava em vermelho vivo. O amigo despede-se, missão comprida, agora ao cinema. O filme é o de menos, lógico, cada qual com seu motivo, ela a negócio, ele a status, mas não só por isso. O cinema é perfeito como ficódromo, Felipe era novo e não sabia, ela, já perdera as contas, cada semana uma cara nova, um sentimento novo, isso que é a vida, “vivendo dia-a-dia, ficante a ficante”. E afinal o rito mais uma vez recomeça. Atrapalhado, sôfrego e trôpego, onde o medo é vencido pela novidade, a sede de quem quer agora, rápido, como quem compra um presente ou digita no computador.
Ele esta nervoso, queria fazer tudo certo. Tentou lembrar-se do que o amigo ensinou, mas nada, ele olha inquieto o filme, queria dizer algo, qualquer coisa, o que ia dizer se saísse daquela sala sem ter sentido o gosto de batom? Foi quando ela colocou sua mão por cima da de Felipe que, de súbito, ficou tenso, enrijeceu. Tinha que ser agora, qualquer coisa, o que vale é agora. Olhos nos olhos dela, disse que era linda, suava como nunca, apesar do frio que fazia com o ar condicionado. Ele ia emendar porem ela o interrompeu – Eu sei como é que é, na minha primeira vez tava super nervosa, mas então, quer ficar agora? – Felipe sabia, fez um sinal e se atirou aos lábios dela, como se sua vida dependesse de sentir aquilo, saíra do casulo, para ver o mundo pela primeira vez, seria algo a mais, sentiria algo a mais, a tensão era a mil, porem quando afinal ia ser a tensão explodiu. Uma mancha escorreu pelo jeans de Felipe seguido de um alivio...
Ela tentou conter-se, segurar o riso, o nojo e o inusitado disso, improvisou, “não se preocupa, já vi isso acontecer várias vezes...”. Ela sorriu, tentou evitar a zona de perigo, sorriu mais uma vez, deixou sua mão pousar naquele rosto incandescente de 12 anos castos, conteve o riso com um soluço, tomou o rosto (silencio) e prosseguiu “.. agora que você está mais relaxado, que tal você fechar os olhos, pra eu te dar uma surpresa ...”. Aqui morreu o Felipe que vocês ouviram falar.
O primeiro beijo de Felipe tinha vários gostos, gloss com novidade, um arrepio, do céu da boca até a ponta das vértebras, que durou um infinito. O cruzar das línguas, que se falam e secretam coisas entre elas, segredos dos beijos passados, para repassar a outras línguas, essas línguas que criam universos, para si próprias, e não se separavam, gosto de beijo e Halls.
Passaram algumas horas, e ao final do filme, eles insistiam, valia a pena, só voltaram pra esse mundo chato e sem gosto quando o lanterna berrou do fundo do sala, que ele arrumava para a próxima sessão. Pelo jeito, ela e Felipe aproveitaram. Saindo, ele virou-se para ela, que estava com o celular. Os fios dourados batiam naqueles bugalhos exagerados, os olhos, verdes claros daquela fada, que posava para ele, olhos belos que contavam histórias de amor e felicidade para Felipe, e este, ora por causa dos olhos, ora da ingenuidade de quem tem 12 absorvia cada sílaba. Ela era para ele, o sorriso dela já dizia tudo, aqueles peitos, a barriga, a cintura, coxas, meu Deus. E os lábios, que faziam carinho, amarravam e prenderam-no num paraíso, onde cordilheiras róseas abrem o caminho para dois mares da saliva finalmente encontrarem-se, mas não só isso. O para de esmeraldas pareciam falar, sussurrar umas palavras perigosas, uma frase violenta.
EU TE AMO, e durante todo o segundo, entre o olhar de Felipe e a resposta, com um sorriso simpático dela, foi o tempo preciso para ele ler nela o eu te amo. Ele se apaixonou, ela nem notou.
Passados mais alguns segundos, ela virou-se para ele, selou a noite com um selinho mais discreto, sorriu e disse:
- Você é bem legal Felipe, o BV mais legal que tirei de alguém...
Os olhos de Felipe brilharam, destilando amor (ou seria mesmo paixão) ele sorriu de volta, só faltou a resposta.
- Você é bem gatinho sabia, ela continuou, mas olha Fê, tá tarde, tenho que ir, beijo.E tão rápido como se despediu, ela já desapareceu como um bom camaleão faz. Os grandes olhos se perderam na multidão que se formava para a nova sessão, mas seu coração, que até hoje sonha e imagina aquele dia, não a perdeu e a guardou a sete chaves, para ele devorá-la quantas vezes sonhasse. Perdeu o BV e o coração.

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